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As festas juninas têm uma origem pagã - a celebração do solstício de Verão - que vem dos primórdios da humanidade.
Nos países do hemisfério norte isso tem toda a lógica - no dia 23 de junho o Sol começa a atingir o seu ponto mais alto do ano, algo especial para povos que gozam de poucos dias de sol.
Era visto pelos povos primitivos também como a celebração da fertilidade da terra ou ocasião para o início dum namoro.
A igreja católica, constatando a força dessas festas junto do povo, procurou com sucesso - nomeadamente em Portugal - ligá-las aos seus mais importantes santos, o que caiu bem em populações predominantemente católicas.
Em Portugal e Brasil (neste, sobretudo no Nordeste e em Minas) as festas assumem características muito peculiares e têm enorme impacto popular. O que é paradoxal, dado o Brasil ser do hemisfério sul, e Portugal ser do sul da Europa onde o solstício não tem tão grande importância. * (1)
Possivelmente a dimensão que se dá às festas juninas nos dois países tem a ver com essa aculturação religiosa que terá aumentado o seu impacto.
MAS QUEM SÃO ESTES SANTOS?
Santo António - de seu verdadeiro nome Fernando de Bulhões - nasce a 13 de Junho de 1196 em Lisboa e morre em 1231 na cidade de Pádua, Itália.
Já
São João, o mais popular dos três, segundo as versões comuns é
S. João Batista, o apóstolo que, de acordo com a Bíblia, batizou Jesus. Toma-se o 24 de Junho como data do seu nascimento.
Mas os habitantes do Porto - onde a
grande festa é o dia de
S. João - acreditam que
celebram um frade eremita de nome
João que nasceu no Porto e morreu em Tuy, na fronteira Galiza-Portugal, séc. IX. Três séculos mais tarde D. Mafalda trasladou alguns dos seus restos mortais para o Porto pelos muitos fiéis que acreditavam ter este santo poderes curativos.
S. Pedro, o terceiro da tríada dos santos populares de Junho, é o próprio
apóstolo Pedro, a quem Jesus deu nome ao fazê-lo a
pedra angular da construção da sua igreja, e celebra-se a 29 de Junho.
AS FESTAS JUNINAS EM PORTUGAL
Em Portugal, de norte a sul e arquipélagos insulares, não há praticamente uma localidade onde não sejam celebradas. Mas
apenas um dos santos é escolhido para
a festa em cada lugar, os outros são respeitados mas não assumidos como padroeiros do município.
Uma música típica dos santos populares em Portugal
AQUI.
A grande festa de
Lisboa é naturalmente
o Santo António - a
13 de Junho fecha tudo e é feriado municipal.
Já no
Porto e em
Braga, 2ª e 3ª cidades portuguesas, o feriado e a festa são
do S. João, a 24.
Em
Sintra, segundo município
mais populoso (arredores de Lisboa) o
feriado é a 29 e celebra-se o
S. Pedro.
Nas vilas e maiores aldeias (núcleos com menos de 10.000 habitantes) há quase sempre uma banda, que é também escola de música, e
concursos de "marchas populares" fantasiadas e seguindo diferentes temáticas, representando colectivos culturais em que as crianças e jovens - e pessoas de todas as idades - participam com particular entusiasmo.
EM LISBOA
A música mais típica das festas dos santos populares é
a marchinha. Outra característica da festa junina em Portugal é a
população vir toda para as ruas festejar, E, sobretudo em Lisboa, os vizinhos dos bairros típicos e populares têm liberdade para montar bancas de comes e bebes (o que durante o ano só é possível com uma licença especial, camarária), num ambiente de grande alegria, em que as pessoas se misturam nas ruelas estreitas e antigas do centro, nos bairros da Mouraria, Alfama, Bica, Graça, Xabrégas, etc.
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| O Santo António em Lisboa: na rua, no concurso de marchas e nos casamentos em conjunto. |
As ruas são decoradas com bandeirinhas alpendradas, balões de papel, arranjos florais, e vendem-se milhares de vasinhos de manjerico, uma planta cheirosa onde se coloca um verso brejeiro em papel que os rapazes ofereciam às moças, mas hoje todos oferecem a todos, indistintamente - amigos, parentes, etc.
As
principais comidas são: a
sopa de caldo-verde (couve portuguesa às tirinhas cozida apenas com batata passada, sal, azeite e umas rodelas de chouriço para gosto); as
sardinhas - prato obrigatório, muito bom devido à época de captura, ao mar frio e ao método de assadura na brasa - acompanhadas de
salada; as
bifanas (bifinho de porco, no pão ou no prato); o
chouriço (espécie de linguiça de carne de porco curada em fumo ao longo de meses) assado mesmo na rua em chama de álcool e em vasinhos de barro;
batatinhas pequenas cozidas com casca e, como sobremesas,
arroz doce, leite-creme brulé,
salada de fruta... (e muitos etc. - a culinária portuguesa é das mais diversificadas do mundo). Tudo acompanhado de vinho, sangria ou cerveja, e música popular portuguesa.
Em todo o Stº António de Lisboa é tradição, ainda, algumas dezenas de casais de condição modesta casarem-se em conjunto, com todos os eventos patrocinados pela Câmara Municipal da capital.
NO PORTO
Já no Porto a celebração de arromba é o S, João , e a cidade vem toda para a rua.
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| Martelinhos nas ruas do Porto e uma cascata típica. |
Os
balões em papel colorido, acesos e lançados no ar - muito populares no Brasil - são uma tradição desta cidade, assim como
as cascatas, uma espécie de presépio junino, de que inclusive se faz um grande concurso. Outra tradição é bater amigavelmente com um
alho porro (modernamente, passaram a ser
martelinhos de plástico) em todas as pessoas que passam. O grande final é sempre na
Ribeira, zona junto ao rio Douro, onde a multidão se aglomera nas duas margens para assistir ao fogo de artifício lançado da ponte D. Luís (toda em ferro e projectada pelo engenheiro
G. Eiffel), sendo a arte da
pirotecnia uma forte tradição, havendo ainda bastantes fábricas pirotécnicas na região norte.
AS FESTAS JUNINAS NO BRASIL
Embora a festa mais popular do Brasil seja provavelmente o Carnaval, o
S. João em certas regiões excede-o em impacto popular.
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| "O maior S. João do mundo", em Campina Grande - Paraíba - NE |
A grande força do S. João está no Nordeste, onde ganhou particularidades próprias, com o ritmo contagiante do
forró *(2), não apenas
tocado e cantado, mas também
dançado em concursos de frenéticas
quadrilhas juninas que seguem sempre o
roteiro tradicional: a história dum casamento, onde entra padre, sacristão, casal de noivos, pais dos noivos, rei e raínha do milho, juíz e escrivão, padrinhos, delegado, casal de cangaceiros, convidados (muitas vezes representando "matutos") e um marcador que dirige os passos.
O típico forró, pelo grande
Luiz Gonzaga AQUI.
Quase todo o povo festeja, seja com uma
fogueira em frente à casa, seja indo para as ruas assistir aos
concursos de quadrilhas, dançar, beber e comer, seja vestindo as crianças com trajes muito coloridos.
No nordeste come-se sobretudo milho assado ou cozido, cuzcuz, canjica e pamonha (todos feitos do milho), pé-de-moleque e maçã do amor, em Minas entra ainda o arroz doce, o pinhão e as castanhas de cajú.
O
comércio também colabora, além de decorar as lojas, os empregados pôem sempre algum adereço de S. João, como o tradicional
chapéu em palha e o lenço.
Uma curiosidade brasileira é que o
dia dos namorados - ao contrário do resto do mundo, que é a 14 de fevereiro - no Brasil todo foi associado ao Santo António e comemora-se a 12 de junho!
As festas, na verdade, são celebradas em todo o Brasil, desde
S. Catarina (sul) a
Roraima (extremo Norte), passando pelo
Rio e
S. Paulo, onde os núcleos de emigração portuguesa foram sempre bastante numerosos,
Minas Gerais, ou mesmo em locais improváveis como o
Pantanal de Mato Grosso, com características próprias e muito fortes também.
Verifique:
PANTANAL
S. CATARINA
MINAS GERAIS
RORAIMA
*
1 - AS FESTAS JUNINAS VIERAM MESMO DE PORTUGAL?
Como, por diversos motivos que não vou analisar, há uma tendência em certos setores para diluir a influência portuguesa na cultura e na História brasileiras, invocando outros países ou simplesmente omitindo as origens, a pergunta tem cabimento. Há mesmo um blogue numa prefeitura brasileira que encontra influências chinesas nestas festas juninas!
Mas logo à vista desarmada se observam as semelhanças das festas nos dois países - nas datas, na tríade de santos, na música (apesar das diferenças devido à evolução posterior divergente), nos enfeites, nos concursos de marchas ou quadrilhas, nos casamentos colectivos, mas sobretudo no ímpeto e força popular destas festas que se sobrepõe claramente ao eventual carácter religioso.
De todo o modo, fiz buscas no Google sobre o carácter destas festas em culturas de países mais próximos, como
Itália,
Espanha e
França. Em
nenhum dos países existe um movimento semelhante, quando muito há celebrações com fogueiras, ou então religiosas, mas de forma muito localizada, em determinado município (em Itália, sobretudo Florença, e na Espanha, sobretudo Valência). Portanto em nenhum são uma festa maciça do povo e de âmbito nacional, como acontece nas festas de Portugal e do Brasil.
Verifique por si mesmo pesquisando no Google de preferência em italiano "festivitá principale, Italia" e em espanhol "fiestas más importantes, España".
Em
França também poderá verificar que em
junho apenas se celebra a nível nacional, e em dias que não têm nada a ver, a festa dos pais e a festa da música, esta última de origem recente.
* 2 - SOBRE O FORRÓ
O
Forró, nome genérico por que são conhecidos vários estilos musicais do Nordeste brasileiro como o
baião, o
xote, o
xaxado e o
coco, merece particular menção por se tratar dum estilo musicalmente evoluído e com executantes de grande qualidade, de que se destaca
Luíz Gonzaga, uma verdadeira força da natureza e considerado o grande renovador e divulgador do estilo.
Tal como o nome
Forró vem provavelmente do
Português (não do
Inglês, nem do
Francês ou do Banto africano, como alguns afirmam - a palavra "
forrobodó" de que deriva, é de uso corrente no
norte de Portugal, e significa "
festança,
barulho".
Também é quase impossível que viesse duma das línguas da família Tupi-Guarani, já que nem têm palavras começadas pela letra F, e nada parecido com Bodó também.
Também é natural que as primitivas influências deste género musical sejam portuguesas (não vem nas enciclopédias, mas em Portugal há estilos folclóricos semelhantes, como o
Vira (Minho, norte), o
Fandango (Ribatejo, centro) e o
Corridinho (Algarve, sul), músicas de ritmo também muito acelerado e sincopado, sendo que o triângulo, o acordeão e a viola usados pelas bandas de forró, são instrumentos também muito usuais no folclore português.
Como é óbvio, dada o forte sentido musical dos outros dois elementos etno-demográficos que, junto com o
português, constituem a base fundadora da sociedade brasileira - o
índío (dominante) e o
africano - o forró moderno dos anos 40 foi provavelmente beber na rádio, no disco e noutros meios influências alheias como a
polka, a
música francesa, etc. que o enriqueceram.
Já em relação à dança das
quadrilhas, igualmente designada
forró no nordeste brasileiro, é habitual considerar-se de influência
francesa pelo facto de utilizarem alguns comandos num Francês adulterado, como "
anarriê", "
anavantu", "
balancê", "
returnê", bem como pelos passos, que de facto diferem bastante das danças portuguesas.
Ora, como nunca houve colonização francesa do Brasil - no nordeste apenas se regista uma fugaz presença, meramente para trocas, de corsários e mercadores franceses no período antes da colonização propriamente dita, ou seja, antes de os portugueses se estabelecerem em todo o território - seria um tanto mirabolante que existisse essa influência por via direta.
Parece mais lógico que palavras e passos de dança tenham sido trazidos pela
corte portuguesa quando se estabeleceu no
Rio de Janeiro no início do século XIX e fossem sendo levados por frequentadores das festas da Corte - que eram bastante abertas, ao que consta - para outras regiões do Brasil. O que não obsta que também sejam influenciadas pelo folclore português (basta olhar algumas danças portuguesas já citadas).
Observe-se que as danças de salão da nobreza em Portugal como em toda a Europa tinham, essas sim, muita influência francesa e num certo período (século XVIII) era também considerado chique os nobres usarem palavras francesas na suas conversas e, por maioria de razão, nos bailes.